Não vamos deixar esse tesouro ir para o fundo do mar

foto de André Gomes

Regata Aratu Maragogipe 2013 – crônica de Amaranta Vieira Rocha

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Amaranta Vieira Rocha, em apaixonante crônica, descreve seu inaugural passeio a bordo do saveiro Sombra da Lua, participante da Regata Aratu Maragogipe:

A Bordo do Sombra – A primeira aventura em águas baianas

Livre de expectativas, mas com grande curiosidade, embarquei pela primeira vez a bordo de um saveiro, na Regata Aratu Maragogipe, no seu aniversário de 44 anos. Coração acelerado, sorrisos e entusiasmo de todos que ali estavam. Pessoas bem diferentes entre si, em todos os sentidos, mas todas reunidas neste evento que mais me parecia uma comemoração do que uma competição. Uma celebração à vida. Reunião de amigos e personagens unidos por uma causa: manter os saveiros respirando e riscando os mares – com licença para os gerúndios, mas eu gosto assim.

O tempo, segundo alguns participantes, não ajudou. Estava nublado, ora encoberto ou chuvoso. Para mim, que sou marinheira de primeira viagem, tudo era novo. E tudo estava lindo, não havia tempo ruim. Vesti uma capa de chuva amarela, emprestada por um novo amigo, fresquinho, feito ali mesmo naquela hora. Mais um paulista “perdido” na Bahia. Um dentista funcionário da Marinha. Um entre tantos personagens mais do que interessantes que, entre comes, bebes e boas risadas, relembram as regatas anteriores e as histórias de saveiros e saveiristas. Paulistas, cariocas, baianos… navegando com Paixão mesmo debaixo de chuva e até mesmo na suaeira.

Para os leigos como eu, o mestre – comandante da embarcação e sábio em sua arte de “saveirear” – explica que quando o vento pára e o saveiro não tem mais como continuar, é dado o nome de suaeira, que às vezes exige uma ajuda, um reboque. Se o foco fosse a competição teríamos ficado em último lugar, pois a suaeira não teve jeito mesmo e precisamos da ajuda de um barco de passeio. Já estava quase anoitecendo.

Pelo visto não havia muitas chances para o Sombra da Lua no ranking. Até que eu perguntei  para um dos participantes quem era o responsável pelo controle da chegada de todos os barcos e a classificação. A resposta veio junto de um largo sorriso: “não faço a menor ideia”. E gargalhadas soaram em seguida. Foi aí que eu tive a confirmação do que pressenti durante todo o passeio. Ganhar ou perder não tinha a menor importância. Como na vida, para mim pelo menos. E nesta hora brotou identificação, paixão, amor. Uma grande chama tinha acendido meu coração adormecido. E era mesmo no Sombra e sem sombra de dúvida, uma das experiências mais vivas que eu já havia experimentado.

Mestre Jorge com sua sabedoria a nos guiar e proteger mar à dentro; Malaca, sempre em seu posto a rir, bebericar e conversar com as amigas durante a viagem toda, sem sair da sua cadeira cativa. Impossível não se contagiar e divertir com suas risadas vibrantes. Gessé sempre sorridente como um “buda” a abençoar o Sombra e seus tripulantes, Marília iluminando com seu sorriso e charme, Lene curtindo a festa, o casal de cariocas, os dentistas marinheiros, Bel Borba e sua presença daliniana, meninos e menina mais doces que pé-de-moleque trazidos por Malaca… Todos me acolheram e o Sombra me abarcou pra dentro dele e daquele dia especial. Inesquecível.

Estava anoitecendo. Era sinal que ia acabar. Certa tristeza de final de domingo me invadia. Entramos na escuna de volta. E mesmo no fim fui presenteada. Pedro Bocca me ofereceu gentilmente um agasalho e uma aproximação com uma grande figura. Não sabia quem era mas sua história me interessava. Vim a perceber que se tratava de uma das maiores velejadoras do mundo. Izabel Pimentel. Personagem fascinante, me contou um pouco da sua história de vida inspiradora. Veleja sozinha, apenas na companhia de sua gata, ao redor do mundo.

Me apaixonei novamente. E a invejei um pouco também. Corajosa. Que mulher! Tenho medo de trovoadas dentro de casa, imagine em alto mar e sozinha, pensei eu! Quis colocá-la na mochila e levá-la para casa para ouvir todas as suas histórias, que devem ser muitas e boas. E quis pedir pra ela me levar na mochila dela também. Seu olhar é doce e as mãos de guerreira, de mulher trabalhadeira. Nunca vou esquecê-la, mesmo o encontro tendo sido rápido e no escuro (na escuna quase não se via o rosto de ninguém na volta, só a imensidão nos rodeava).

A escuna ia rápido e eu fui à proa ver os meninos – e a menina – que Malaca me trouxe. Mais risadas, estrelas cadentes e muita contemplação. Deitados, ríamos, conversávamos mais um pouco e nos despedíamos daquele encontro e do céu abençoado. Chegamos. Abraços rápidos e todos rumo aos carros e caronas. Exaustos. Meu corpo ficou mareado. A alma leve e nostálgica. Querendo ficar para sempre ali, a bordo. Ao chegar em casa o corpo pendulava de um lado para o outro e eu ria feliz. Dormi como nunca.

Alguns dias depois, o dever me chamou. Precisei retornar à São Paulo e seus dias cinzas, frios e chuvosos ou como queiram. Aqui é o meu lugar de nascimento e origem. Mas, houve um erro geográfico na hora de Deus me pôr no mundo, como costumo brincar. Meu coração escolheu a Bahia. Suas águas claras e seu céu azul. Seu povo bom e malemolente. Seus dias quentes que me ajudam nas horas mais difíceis. Mas era hora de voltar. Ainda precisava tapar alguns buracos e rever alguns processos na cidade fria. Pendências. Trabalho. Família. É a vida.

Hoje, quando minhas mãos congelam e meus pés endurecem com os 8ºC que fazem lá fora, fecho os olhos, silencio a mente e penso nos Saveiros. Lembro do silêncio do mar no dia da Regata e dos barulhos gostosos que as pessoas faziam naquela tarde. Lembro do Sombra e sua imponente vela içada. Imensa. Me emociono. E, por um instante, mesmo no meio do caos, a alma se aquieta e o coração acende. Fico menos triste e sinto um pouco de calor. Os saveiros agora são o meu alento.

Amém!

PS: Dedico essa crônica e o meu carinho aos meus “tios” Dedé e Agildo, que infelizmente não puderam me acompanhar a bordo já que, na mesma data, se despediam da querida Dona Ivone. Mesmo assim me presentearam. Obrigada!

3 Comments

  1. Como seriam nossas terras e nossos mares se não conservados e valorizados nosso costumes e bens materiais mais valiosos como por exemplo aqui citado os saveiros…
    Parabéns Amaranta Vieira Rocha, a felicidade é fácil de se encontrar em pequenas coisas, e com elas nossa vontade de nunca se afastar.. Viva nossos Saveiros!

  2. Que belíssima viagem seu texto me permitiu fazer! Amando e agora pesquisando mais sobre a história dos saveiros, deixo a minha gratidão. Acredito que os melhores momentos acontecem como sonhos na nossa caminhada.

  3. Obrigada pelos comentários… bom saber que consegui passar com meu texto que o Saveiro inspira vida! Ahhh que saudade daquela velejada! Fica a dica pra quem quer se aventurar, relembrar ou viver a felicidade plena. Forte abraço e bons ventos à todos!

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