Não vamos deixar esse tesouro ir para o fundo do mar

atarde_destaque_crop

A Tarde: “42ª João das Botas – Senhores do Tempo”

| 0 comentários

42ª João das Botas

A bordo de barcos seculares, mestres saveiristas não se rendem à modernidade

No álbum, imagens da matéria sobre a 42ª Regata João das Botas impressa no jornal A Tarde – página 3 do caderno Esporte Clube – de sábado, 25 de janeiro de 2014.

A seguir a transcrição da matéria:

Aurélio Lima

Indiferentes à necessidade de inserção da tecnologia na rotina diária, saveiristas residentes no entorno da Ilha de Itaparica confiam 100% no encontro pessoal do que no contato pelas redes sociais.
Tradicionais protagonistas da Regata João das Botas, que amanhã, a partir das 13h, completará sua 42ª edição, os antigos velejadores confessam com simplicidade que jamais se debruçariam sobre um computador.
Poderiam até ter um celular, mas a maioria nem faz uso e tem um argumento sólido para isso: é raro um ponto com sinal. Na região de Coqueiros, onde A TARDE esteve, o sinal, quando foi detectado, não permitiu fazer ligações.
Tem sido vã, também,  a tentativa de convencer algum deles a criar conta de e-mail ou em redes sociais. Mesmo com o argumento de que isso facilitaria o contato com a Marinha, que organiza a regata desde 1969.
“Nem sei o que é isso (Facebook) que o senhor falou”, estranhou o saveirista Chagaxá, dono do Cruzeiro da Vitória, um dos 102 barcos inscritos na competição, que terá largada e chegada no Porto da Barra.

    “Para nós, dia e noite é uma coisa só. A gente sabe navegar a qualquer hora, sem bússola”

Aos 75 anos e participante da regata desde 1972, mestre Chagaxá é um dos mais velhos na competição náutica, que reúne as mais antigas embarcações da Bahia (leia histórico no fim).
“A gente tem relógio, mas não usa. Se é para levantar duas ou três horas da manhã, a gente acorda na hora certa, sem precisar de despertador”, afirmou Lourival Almeida, 69, capitão do saveiro Feliz Ano Novo.
Recorrer à internet ou bússola é algo fora de cogitação a bordo. “Nem bronzeador para proteger a pele se usa por aqui. A gente não sabe o que é GPS. Tem tudo na cabeça, sabe onde estão os bancos de areia que já encalharam até ferry-boat”, afirmou mestre João Merico, 68, do Novo Cruzeiro.
A única exceção é o rádio, veículo com o qual o convite-propaganda da Regata João das Botas chegou aos saveiristas da Ilha de Itaparica. “A gente colocou cartazes, fez o corpo a corpo e mandou mensagens para eles na Rádio Tupinambá”, explicou o mestre Abelha, 69 anos, que comanda o saveiro Ciclone e, nos dias que antecedem a João das Botas, vira um colaborador da Marinha na divulgação da regata.

De porta em porta

Sem Whatsapp ou SMS, a opção da Capitania dos Portos da Bahia é ir de porta em porta nas ilhas. Em uma das visitas da semana, acompanhada por A TARDE, seis integrantes da Marinha foram às comunidades ribeirinhas do Rio Paraguaçu. Liderados pelo capitão-de-mar-e-guerra, José Antonio Costa, eles repetiram a bem sucedida campanha de divulgação feita há décadas.
Para reforçar o convite pessoal, os marinheiros fixam faixas e cartazes nas sacadas das casas. A peregrinação resultou em 102 embarcações inscritas. Um pouco distante do recorde de 1969, quando foram 228.
Indagado o porquê de mesmo já estando na reserva, ainda trabalhar na regta, o capitão José Antonio conta que tem uma história de amor com os saveiros originária de 1953.
Na época, os pais dele residiam em Mutá (uma das ilhas) e a parteira não conseguiu ajudá-lo a nascer. Mãe e bebê corriam risco de morte se não fossem para Salvador. “Nos trouxeram de saveiro e a minha mãe me teve na maternidade Climério de Oliveira”, revelou o capitão da Marinha.

Tradicional Regata nasceu em 1969

    A ideia da regata surgiu em 1969, na despedida de uma escuna de iatistas baianos que dariam a volta ao mundo. O espetáculo impressionou o capitão dos portos da época, que desde então organizou uma regata de saveiros. Em 1972, ganhou como patrono João Francisco de Oliveira Botas, conhecido por João das Botas, herói da Guerra da Independência na Bahia, que em 1823 enfrentou as forças navais de Portugal. Ele usou uma esquadra de canhoneiras e saveiros tripuladas por 700 homens, originários da região do recôncavo baiano, cuja base era a Ilha de Itaparica.

Comente!

Campos requeridos estão marcados *.


Associação Viva Saveiro
info@vivasaveiro.org

siga a Viva Saveiro