Não vamos deixar esse tesouro ir para o fundo do mar

Nosso Patrono

lev smarcevscki retrato
Lev Smarcevski é o nosso Patrono.
Arquiteto, pintor, escultor, navegador e inventor, ele nasceu na Ucrânia mas considerava-se baiano de criação e dedicou sua vida inteira ao mar. Segundo Jorge Amado“o baiano que nasceu mais longe do mar.” O Dia do Saveiro é comemorado dia 19 de janeiro, dia do seu aniversário.

trabalho com enxó - desenho de Lev

trabalho com enxó – desenho de Lev

Também em sua homenagem, a Associação Viva Saveiro criou a Regata Lev Smarcevski, cuja primeira edição foi realizada em 24 de janeiro de 2009 e depois passou ser realizada em maio, encerrando a Semana do Saveiro.

Lev Smarcevski foi dos primeiros que percebeu a importância e valor dos saveiros como barcos perfeitos em sua concepção e finalidade, verdadeiros patrimônios históricos e navais de nossa terra. Pesquisou, estudou sua origem e trajetória, sua adaptação e participação crucial no desenvolvimento econômico e cultural do Recôncavo.

Desta paixão produziu o livro Graminho – A Alma do Saveiro, onde ilustra com clareza de detalhes como o barco é construído; da carangueja à caverna, do cabeço à cana de leme, cabos, rodilhas, calafetagem, ferramentas.

Outros amigos famosos de sua geração também foram amantes, admiradores dos saveiros, e os eternizaram em seus ofícios: Jorge Amado, Carybé e Dorival Caymmi.

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A Grande Viagem

Lev partiu para o céu;
Foi ajudar com sua arte, o Senhor Deus
A fazer mais colorido o paraíso;
E com seu enigmático sorriso,
Deve estar a questionar o Criador
Se é preciso tanta guerra, tanta dor,
Para um dia ser permanente a paz;
E o senhor responderá que nunca mais
Ele verá qualquer resquício de maldade,
Pois chegou em Jerusalém, a Celestial Cidade,
Que prometeu aos que vivenciam o Amor.
Hoje Lev, com seu costumeiro humor,
Está fazendo Deus sorrir com mais largueza
Pois já faz parte da Divina Natureza
E com sua mãe, está a interceder por todos nós.
Não esqueceremos o tom vibrante de sua voz,
Sua maneira de viver, seu destemor,
A luminisidade que colocava em cada cor,
Seu amor extremado pelo mar.
Sua família e seus amigos estão a louvar
O grande mestre, o arquiteto, o itinerante,
O pintor, o escultor, o navegante,
Que conhecia a fundo o mar e seus mistérios.
Hoje ele embarca num especialíssimo saveiro,
Rumo ao Porto Seguro da Salvação,
Onde é infinita a paz, no Oceano de Smarcevskiana coloração.

Lygia Fialho

Prefácio de Jorge Amado para o livro “Graminho – a Alma do Saveiro” de Lev Smarcevski:

LEV, MESTRE DE SAVEIROS

Lev Smarcevski, mestre de saveiro, no seu saveiro cruza os sete mares, navega oceanos distantes, um bom baiano.
São vários os baianos de velha estirpe, de régua e compasso, nascidos longe da Bahia, nos arredores do mundo. Os exemplos são muitos, vale à pena citar alguns.
Não vale, porém citar Luís Vianna Filho, nascido em Paris, pois foi registrado em cartório da cidade da Bahia, como se aqui tivesse visto a luz do dia. Seu pai era governador, mandava e desmandava. Também ele foi governador alguns anos depois, bons governadores, pai e filho.
Os exemplos clássicos, sempre repetidos, são os de Pierre Verger e Carybé. O primeiro, francês de nascimento, doutor em África e em tráfico de escravos, baiano por vocação, decisão e merecimento. O segundo nasceu em Buenos Aires, de pura molecagem, é claro, pois sendo filho de mãe baiana e pai italiano não tinha porque ir nascer na Argentina: ele o fez de propósito, para semear a confusão, como é de seu hábito e gosto.
José Calazans, historiador de Canudos, grande figura intelectual da Bahia, nasceu ali pertinho, em Sergipe. Vários baianos eminentes ali nasceram – basta citar um dos pintores mais renomados do Brasil, Jenner Augusto, ele e seu irmão, o jornalista Junot Silveira. Para compensar, pois Lourival Batista, que governou Sergipe com tanto garbo e dedicação, nasceu em Feira de Santana. O escritor Carlos Eduardo da Rocha, dandi e acadêmico, nasceu no Acre, onde nasceram também seus irmãos, o poeta (grande) Wilson Rocha e o excelente jornalista José Olímpio – três cidadãos baianos de muito axé. Nos confins do Maranhão, nasceu numa tribo de índios aquele que viria a ser Floriano Teixeira. Se não tivesse fugido da selva em busca de mulher branca, teria terminado cacique. Foi ser desenhista em Fortaleza, diretor de museu da Universidade, personalidade. Acontece, porém, que o índio Floridopau-açú nascera baiano e tendo vindo à cidade da Bahia a passeio, estabeleceu-se de vez e para sempre no Rio Vermelho com Alice, a formosa, e numeroso clã. Mestre pintor, riso de malícia, língua de trapo, coração de ouro. Altamir Galimbert chegou do Espírito Santo, hoje é dono da Praia do Forte, ali, numa pequena capela, construiu o mais belo altar do mundo inteiro.
A Alemanha nos deu Karl Hansen, o grande gravador que amou a Bahia com todas as fibras de seu coração, a ponto de se transformar em Hansen Bahia.
A Suíça, também pródiga, nos enviou Bruno Furrer, fotógrafo e gráfico, excepcional, que preserva em seus livros nossa memória artística. O volume dedicado a Carybé custou-lhe anos de trabalho, pesquisa e compreensão. Ao tornar-se baiano, Bruno nos deu de quebra a doçura de Gardênia.
Odorico Tavares, que foi em certo tempo um dos reis da Bahia, nasceu no sertão de Pernambuco, aqui chegou cheio de nó pelas costas, metido à besta, agressivo e intratável, nós o educamos: transformou-se na mais doce das criaturas, e sua poesia combativa dos anos 30 cresceu num lirismo transbordante de ternura. Mais baiano do que Odorico Tavares não houve ninguém, ao que eu saiba – Carybé empata, pau a pau.
Dos baianos ilustres, de velha linhagem, aquele que se deu ao luxo de nascer o mais longe possível da Bahia, do outro lado do mundo, foi o pintor e arquiteto – projetou a primeira casa moderna da cidade – antigamente fabricante de móveis, hoje projetista de automóveis de alta tecnologia, navegador, Lev Smarcevski: nasceu na Ucrânia, atravessou a Sibéria, veio menino.
Num saveiro construído na Bahia, partiu mar afora, deu a volta ao mundo, navegador solitário. Solitário? No mar de certo, mas em terra Lev vale por uma população inteira, são vários indivíduos reunidos no físico comprido e agitado de um ser complexo – vários indivíduos, todos eles inquietos e empreendedores.
Conheci sua mãe, santa senhora. Conheço sua esposa, outra santa. Se bem pareça um diabo solto nas ruas da Bahia, Lev não deixa de ser, ele também, de certa maneira, uma espécie de santo.
Baiano ilustre e inumerável – tantas vocações, tantas afirmações -, entre suas diversas profissões, arquiteto pioneiro, pintor famoso, aquela que o marca em definitivo é a de mestre de saveiro. Ao leme de seu saveiro, nos becos da Bahia, nas águas do Golfo de Todos os Santos, nos mares distantes.
Com o português Santos Simões, o dos azulejos, pesquisou a história dos saveiros, as origens, a tecnologia de sua construção. Aprendeu tudo e tudo sabe. Não contente, ele os construiu e, a bordo de um deles, navegou, da Bahia ao Caribe, do Caribe aos mares da China.Não lhe bastaram tais aventuras, necessitava dar ao saveiro uma existência mais além da travessia e da viagem. Mestre do desenho, restaura agora a grandeza inteira da embarcação por excelência. O livro para o qual escrevo estas mal traçadas linhas, começou por ser um projeto de Lev e de Santos Simões. O português se foi, deixando-nos órfãos do seu saber. Lev continuou sozinho e nos dá o esplendor dos saveiros, em sua dimensão maior, a da arte.
O baiano Lev Smarcevski, mestre de saveiros. Nasceu na Ucrânia, chegou à Bahia de calças curtas, aqui conheceu, namorou e casou com uma santa de altar. Duas filhas e o filho, arquiteto de méritos proclamados, geraram 8 netos, sendo um já campeão de optimis.
Nasceu na Ucrânia, a Bahia lhe deu régua e compasso, e um saveiro para nele velejar.

Jorge Amado

18 de janeiro - Dia do Saveiro

18 de janeiro – Dia do Saveiro

Capa do livro "Graminho - A Alma do Saveiro"

Capa do livro “Graminho – A Alma do Saveiro”

Saveiro - desenho de Lev Smarcevski

Saveiro – desenho de Lev Smarcevski

 

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